quarta-feira, 15 de abril de 2026

1976: Muito além dos "medalhões" [Parte 2] - 10 discos Progressivos nota 10 completando 50 anos


1976 foi um marco indiscutível para o Rock Progressivo, mas a verdadeira riqueza desse período muitas vezes se esconde além das gigantes lendas britânicas, revelando tesouros obscuros e inestimáveis pelo mundo. Na América do Sul, a cena fervilhava com o 
MIA na Argentina, entregando uma música de natureza sinfônica e jazzística de altíssimo nível, mesmo sendo liderada por um jovem de apenas 15 anos de idade. No Brasil, O Terço trilhava um caminho singular com um Rock Progressivo mais ensolarado, melódico e com pitadas folclóricas. Subindo para a América do Norte, a contribuição sofisticada do Pollen, de Québec, provava que o Canadá possuía arranjos complexos e belíssimos vocais em francês capazes de rivalizar com os grandes mestres do gênero.

A Europa continental, por sua vez, consolidou-se como um verdadeiro laboratório de experimentações conceituais e atmosféricas. A escola francesa presenteou os ouvintes com o Rock Sinfônico melodramático, teatral e sombrio de grupos como Mémoriance Mona Lisa. Na Alemanha, enquanto o Novalis e o Hoelderlin apostavam na majestade sinfônica de muito bom gosto e em ambiciosos álbuns conceituais, o Jane mergulhava profundamente em atmosferas espaciais carregadas de emoção. Essa mesma aura Space Prog, dominada por sintetizadores, marcou o som majestoso do Omega na Hungria, contrastando com a Holanda, onde o Trace criou um elaborado conto de fadas musical focado na suavidade e no domínio absoluto dos teclados.

Hoelderlin / AlemanhaClowns and Clouds
Nesse seu terceiro disco, a banda alemã Hoelderlin apresentou um álbum conceitual que divide suas temáticas de forma peculiar: o lado A é dedicado aos palhaços, enquanto o lado B é focado nas nuvens. A chegada do novo baixista e guitarrista Hans Baar teve um impacto significativo na sonoridade, atuando como uma força de forte inspiração, especialmente nas composições etéreas da segunda metade do disco.

A sonoridade do álbum é classificada como um autêntico Rock Progressivo, que foge de tons demasiadamente pomposos ou pesados, optando por um desenvolvimento lento e maravilhosamente elaborado. As faixas do lado das nuvens destacam-se por serem mais aéreas e celestiais, criando uma audição honesta, sem esquizofrenias exageradas, e altamente indicada para os fãs de Música Progressiva Clássica.

Jane / AlemanhaFire, Water, Earth and Air
Em seu quinto álbum de estúdio, os alemães do Jane resgataram as suas raízes sonoras baseadas em um Rock Progressivo melódico, carregado de emoções profundas e atmosferas espaciais. O retorno do tecladista original Werner Nadolny foi fundamental para ajudar a banda a reencontrar os maravilhosos "humores" de órgão que, casados com as majestosas performances de guitarra, marcaram os seus primeiros trabalhos.

O grande destaque incontestável é a épica faixa-título de 17 minutos, que mistura perfeitamente um início lento, vocais melancólicos temperamentais, e os geniais riffs e solos de guitarra cheios de energia de Klaus Hess. Apesar da curta duração de apenas 33 minutos, o disco entrega uma performance simples e sem exageros, sendo um prato cheio e altamente recomendável para apreciadores do Eloy e da fase inicial do Pink Floyd.

Memoriance / FrançaEt Aprés
Sexteto francês oriundo de Le Havre, a Memoriánce é uma verdadeira joia obscura que representa magistralmente a escola clássica do Prog-Rock sinfônico do seu país. As quatro composições desse álbum de estreia, são predominantemente estruturadas em ritmos lentos e exploram vastas quantidades de tons atmosféricos, sombrios e espaciais, sendo sustentadas por fortes linhas de baixo e baterias precisas.

A instrumentação do grupo cruza perfeitamente pianos hipnóticos e guitarras muito melodiosas, tocadas à semelhança de lendas como Steve Hackett e Jan Akkerman, aliadas a ocasionais e belos toques de Jazz-Rock-Fusion. Quando os dramáticos vocais teatrais à lá Ange e Mona Lisa entram em cena nas faixas mais longas e complexas, a banda entrega uma obra profunda e impecavelmente arranjada.

MIA / ArgentinaTransparencias
Concebido a partir de uma associação de músicos independentes da Argentina, este impressionante álbum de estreia do MIA, brilha fortemente pelo virtuosismo da sua formação, com destaque estarrecedor para o prodígio Lito Vitale, com apenas 15 anos de idade. Lito e sua irmã, Liliana Vitale, mostraram uma maturidade imensa ao assumirem grande parte das complexas linhas de teclados, baterias e passagens encantadoras de flauta.

O resultado final entregue pelo coletivo é uma riquíssima e bastante melódica fusão entre Rock Sinfônico enérgico, Música Erudita, elementos de Folk e Jazz-Fusion. A épica faixa-título de 20 minutos coroa a excelência do álbum, misturando dezenas de melodias guiadas por sintetizadores e pianos, embaladas pelos lindíssimos vocais etéreos de Liliana Vitale, remetendo diretamente ao som e à qualidade de bandas consagradas do Prog europeu.

Mona Lisa / FrançaLe Petit Violon De Mr. Grégoire 
Superando conflitos internos e as inevitáveis mudanças em sua formação, o terceiro álbum desse quinteto francês é apaixonadamente celebrado pelos fãs como a sua maior e mais refinada conquista. O inquestionável carisma e a teatralidade cênica do vocalista Dominique Le Guennec, que chegou a usar máscaras e tocou flauta de um jeito que rendeu fortes comparações ao estilo de Peter Gabriel, moldaram a profunda identidade mística desta obra.

Musicalmente, o disco passeia com maestria entre Rocks bastante agressivos impulsionados por riffs sólidos, e trechos sinfônicos envoltos por lânguida e dolorosa melancolia. O seu apogeu absoluto é a complexa suíte homônima dividida em quatro atos, que mergulha o ouvinte em momentos densos até um desfecho instrumental lindamente etéreo, solidificando o álbum como um dos grandes monumentos do Prog da França.

Novalis / AlemanhaSommerabend
Composto corajosamente por apenas três faixas, este terceiro álbum majestoso da banda alemã Novalis é muito frequentemente reverenciado como uma esplêndida obra-prima do glorioso Rock Progressivo Sinfônico setentista. Todo o requinte das longas passagens instrumentais é suntuosamente costurado de forma pródiga pelo talento grandioso do tecladista Lutz Rahn.

O espetáculo absoluto e a espinha dorsal do projeto encontram-se na formidável suíte de encerramento, que ocupa os mais de 18 minutos de duração do antigo lado B. Guiada por camadas sonhadoras de sintetizadores e pelos intensos e emotivos solos selvagens do guitarrista Detlef Job, a banda cria um oásis sonoro e poético que é um gigantesco deleite obrigatório para os aficionados por belas melodias Progressivas.

O Terço / BrasilCasa Encantada
Servindo como o audacioso sucessor do aclamado disco "Criaturas da Noite", este álbum da banda brasileira O Terço propositalmente afasta-se de propostas muito melancólicas e herméticas, para entregar ao ouvinte uma Música Progressiva verdadeiramente ensolarada, vibrante, leve e extremamente melódica. A banda apostou inteiramente em um repertório refrescante de material inédito, atrevendo-se a cruzar brilhantemente várias fronteiras musicais.

Em sua sonoridade contagiante, a obra entrelaça belos andamentos orquestrados do Pop e do Hard Rock, e brinca sem medos com ritmos deliciosamente tipicamente brasileiros, trazendo cuíca e ritmos da música rural nordestina. Amparado inabalavelmente pelas harmonias vocais ímpares que dão fama ao grupo, o álbum resulta em um som leve e altamente agradável

Omega / HungriaTime Robber
Simbolizando um fortíssimo momento de transição artística e marcando um tremendo pico de faturamento comercial para o conjunto da Hungria, este clássico foi sabiamente lançado de forma simultânea nos mercados nos idiomas húngaro e inglês. Com a intenção de abraçar novos rumos, o Omega investiu corajosamente o seu tempo na exploração refinada das infinitas paisagens sintéticas geradas pelo Moog.

Transitando magnificamente pelas atmosferas viajantes do Space Prog, o requintado repertório une ritmos cativantes impulsionados por grandiosos teclados com lindas baladas cantadas de forma profundamente melancólicas e emocionantes. Muito da sua bela aura reflexiva e do soberbo trato na guitarra traz ricas semelhanças que os unem às obras da mesma época do Pink Floyd e aos primórdios sonoros da banda alemã Eloy.

Pollen / CanadáPollen
Tratando-se do primeiríssimo e infelizmente único registro desta habilidosa, criativa e subestimada banda da região canadense do Quebec, "Pollen" prova ser uma valiosa pérola imensamente sofisticada do elegante Rock Sinfônico de sotaque e poesia em francês. Possuidores de incríveis talentos criativos, a banda construíu ritmos formidáveis que capturam muito bem a essência polida de nomes intocáveis como Genesis, Yes e Harmonium.

As brilhantes faixas alternam otimismo, peso complexo parecido com a escola Gentle Giant, e doces baladas ricas que fascinam o ouvinte a cada uso encantador do vibrafone, das flautas bucólicas e dos sintetizadores analógicos marcantes. O grandioso épico principal, "La Femme Ailée", desdobra-se em impressionantes dez minutos recheados do clássico e arrebatador virtuosismo sinfônico calcado pela bela melancolia.

Trace / HolandaThe White Ladies
Liderado brilhantemente pelo perfeccionismo do tecladista Rick van Der Linden em uma reformulada etapa do grupo, "The White Ladies" se desenrola como um imenso e complexo álbum conceitual em dezenove pequenas e imaculadas passagens, baseadas no místico folclore medieval holandês das "Damas Brancas". Fugindo propositalmente da pomposidade agressiva, o seu criador mirou em nuances sonoras lentas e numa refinada mistura de Rock clássico temperado pelo Jazz gracioso.

Buscando traduzir o romantismo e o bucolismo poético literário em delicadas emoções sonoras, a belíssima obra substituiu frenéticos arroubos de teclados por dedilhados meticulosos, dando extremo brilho aos charmosos e atmosféricos compassos executados no elegante clavinete e pelo envolvente uso orgânico dos saxofones. É, sem dúvidas, uma experiência narrativa imersiva, ricamente disciplinada e inesquecivelmente maravilhosa.

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