1976: Muito além dos "medalhões" [Parte 2] - 10 discos Progressivos nota 10 completando 50 anos
1976 foi um marco indiscutível para o Rock Progressivo, mas a verdadeira riqueza desse período muitas vezes se esconde além das gigantes lendas britânicas, revelando tesouros obscuros e inestimáveis pelo mundo. Na América do Sul, a cena fervilhava com o MIA na Argentina, entregando uma música de natureza sinfônica e jazzística de altíssimo nível, mesmo sendo liderada por um jovem de apenas 15 anos de idade. No Brasil, O Terço trilhava um caminho singular com um Rock Progressivo mais ensolarado, melódico e com pitadas folclóricas. Subindo para a América do Norte, a contribuição sofisticada do Pollen, de Québec, provava que o Canadá possuía arranjos complexos e belíssimos vocais em francês capazes de rivalizar com os grandes mestres do gênero.
A Europa continental, por sua vez, consolidou-se como um verdadeiro laboratório de experimentações conceituais e atmosféricas. A escola francesa presenteou os ouvintes com o Rock Sinfônico melodramático, teatral e sombrio de grupos como Mémoriance e Mona Lisa. Na Alemanha, enquanto o Novalis e o Hoelderlin apostavam na majestade sinfônica de muito bom gosto e em ambiciosos álbuns conceituais, o Jane mergulhava profundamente em atmosferas espaciais carregadas de emoção. Essa mesma aura Space Prog, dominada por sintetizadores, marcou o som majestoso do Omega na Hungria, contrastando com a Holanda, onde o Trace criou um elaborado conto de fadas musical focado na suavidade e no domínio absoluto dos teclados.
Hoelderlin / Alemanha
Clowns and Clouds
Nesse seu terceiro disco, a banda alemã Hoelderlin apresentou um álbum conceitual que divide suas temáticas de forma peculiar: o lado A é dedicado aos palhaços, enquanto o lado B é focado nas nuvens. A chegada do novo baixista e guitarrista Hans Baar teve um impacto significativo na sonoridade, atuando como uma força de forte inspiração, especialmente nas composições etéreas da segunda metade do disco.
A sonoridade do álbum é classificada como um autêntico Rock Progressivo, que foge de tons demasiadamente pomposos ou pesados, optando por um desenvolvimento lento e maravilhosamente elaborado. As faixas do lado das nuvens destacam-se por serem mais aéreas e celestiais, criando uma audição honesta, sem esquizofrenias exageradas, e altamente indicada para os fãs de Música Progressiva Clássica.
Jane / Alemanha
Fire, Water, Earth and Air
Em seu quinto álbum de estúdio, os alemães do Jane resgataram as suas raízes sonoras baseadas em um Rock Progressivo melódico, carregado de emoções profundas e atmosferas espaciais. O retorno do tecladista original Werner Nadolny foi fundamental para ajudar a banda a reencontrar os maravilhosos "humores" de órgão que, casados com as majestosas performances de guitarra, marcaram os seus primeiros trabalhos.
O grande destaque incontestável é a épica faixa-título de 17 minutos, que mistura perfeitamente um início lento, vocais melancólicos temperamentais, e os geniais riffs e solos de guitarra cheios de energia de Klaus Hess. Apesar da curta duração de apenas 33 minutos, o disco entrega uma performance simples e sem exageros, sendo um prato cheio e altamente recomendável para apreciadores do Eloy e da fase inicial do Pink Floyd.
Memoriance / França
Et Aprés
Sexteto francês oriundo de Le Havre, a Memoriánce é uma verdadeira joia obscura que representa magistralmente a escola clássica do Prog-Rock sinfônico do seu país. As quatro composições desse álbum de estreia, são predominantemente estruturadas em ritmos lentos e exploram vastas quantidades de tons atmosféricos, sombrios e espaciais, sendo sustentadas por fortes linhas de baixo e baterias precisas.
A instrumentação do grupo cruza perfeitamente pianos hipnóticos e guitarras muito melodiosas, tocadas à semelhança de lendas como Steve Hackett e Jan Akkerman, aliadas a ocasionais e belos toques de Jazz-Rock-Fusion. Quando os dramáticos vocais teatrais à lá Ange e Mona Lisa entram em cena nas faixas mais longas e complexas, a banda entrega uma obra profunda e impecavelmente arranjada.
MIA / Argentina
Transparencias
Concebido a partir de uma associação de músicos independentes da Argentina, este impressionante álbum de estreia do MIA, brilha fortemente pelo virtuosismo da sua formação, com destaque estarrecedor para o prodígio Lito Vitale, com apenas 15 anos de idade. Lito e sua irmã, Liliana Vitale, mostraram uma maturidade imensa ao assumirem grande parte das complexas linhas de teclados, baterias e passagens encantadoras de flauta.
O resultado final entregue pelo coletivo é uma riquíssima e bastante melódica fusão entre Rock Sinfônico enérgico, Música Erudita, elementos de Folk e Jazz-Fusion. A épica faixa-título de 20 minutos coroa a excelência do álbum, misturando dezenas de melodias guiadas por sintetizadores e pianos, embaladas pelos lindíssimos vocais etéreos de Liliana Vitale, remetendo diretamente ao som e à qualidade de bandas consagradas do Prog europeu.
Mona Lisa / França
Le Petit Violon De Mr. Grégoire
Superando conflitos internos e as inevitáveis mudanças em sua formação, o terceiro álbum desse quinteto francês é apaixonadamente celebrado pelos fãs como a sua maior e mais refinada conquista. O inquestionável carisma e a teatralidade cênica do vocalista Dominique Le Guennec, que chegou a usar máscaras e tocou flauta de um jeito que rendeu fortes comparações ao estilo de Peter Gabriel, moldaram a profunda identidade mística desta obra.
Musicalmente, o disco passeia com maestria entre Rocks bastante agressivos impulsionados por riffs sólidos, e trechos sinfônicos envoltos por lânguida e dolorosa melancolia. O seu apogeu absoluto é a complexa suíte homônima dividida em quatro atos, que mergulha o ouvinte em momentos densos até um desfecho instrumental lindamente etéreo, solidificando o álbum como um dos grandes monumentos do Prog da França.
Novalis / Alemanha
Sommerabend
Composto corajosamente por apenas três faixas, este terceiro álbum majestoso da banda alemã Novalis é muito frequentemente reverenciado como uma esplêndida obra-prima do glorioso Rock Progressivo Sinfônico setentista. Todo o requinte das longas passagens instrumentais é suntuosamente costurado de forma pródiga pelo talento grandioso do tecladista Lutz Rahn.
O espetáculo absoluto e a espinha dorsal do projeto encontram-se na formidável suíte de encerramento, que ocupa os mais de 18 minutos de duração do antigo lado B. Guiada por camadas sonhadoras de sintetizadores e pelos intensos e emotivos solos selvagens do guitarrista Detlef Job, a banda cria um oásis sonoro e poético que é um gigantesco deleite obrigatório para os aficionados por belas melodias Progressivas.
O Terço / Brasil
Casa Encantada
Servindo como o audacioso sucessor do aclamado disco "Criaturas da Noite", este álbum da banda brasileira O Terço propositalmente afasta-se de propostas muito melancólicas e herméticas, para entregar ao ouvinte uma Música Progressiva verdadeiramente ensolarada, vibrante, leve e extremamente melódica. A banda apostou inteiramente em um repertório refrescante de material inédito, atrevendo-se a cruzar brilhantemente várias fronteiras musicais.
Em sua sonoridade contagiante, a obra entrelaça belos andamentos orquestrados do Pop e do Hard Rock, e brinca sem medos com ritmos deliciosamente tipicamente brasileiros, trazendo cuíca e ritmos da música rural nordestina. Amparado inabalavelmente pelas harmonias vocais ímpares que dão fama ao grupo, o álbum resulta em um som leve e altamente agradável
Omega / Hungria
Time Robber
Simbolizando um fortíssimo momento de transição artística e marcando um tremendo pico de faturamento comercial para o conjunto da Hungria, este clássico foi sabiamente lançado de forma simultânea nos mercados nos idiomas húngaro e inglês. Com a intenção de abraçar novos rumos, o Omega investiu corajosamente o seu tempo na exploração refinada das infinitas paisagens sintéticas geradas pelo Moog.
Transitando magnificamente pelas atmosferas viajantes do Space Prog, o requintado repertório une ritmos cativantes impulsionados por grandiosos teclados com lindas baladas cantadas de forma profundamente melancólicas e emocionantes. Muito da sua bela aura reflexiva e do soberbo trato na guitarra traz ricas semelhanças que os unem às obras da mesma época do Pink Floyd e aos primórdios sonoros da banda alemã Eloy.
Pollen / Canadá
Pollen
Tratando-se do primeiríssimo e infelizmente único registro desta habilidosa, criativa e subestimada banda da região canadense do Quebec, "Pollen" prova ser uma valiosa pérola imensamente sofisticada do elegante Rock Sinfônico de sotaque e poesia em francês. Possuidores de incríveis talentos criativos, a banda construíu ritmos formidáveis que capturam muito bem a essência polida de nomes intocáveis como Genesis, Yes e Harmonium.
As brilhantes faixas alternam otimismo, peso complexo parecido com a escola Gentle Giant, e doces baladas ricas que fascinam o ouvinte a cada uso encantador do vibrafone, das flautas bucólicas e dos sintetizadores analógicos marcantes. O grandioso épico principal, "La Femme Ailée", desdobra-se em impressionantes dez minutos recheados do clássico e arrebatador virtuosismo sinfônico calcado pela bela melancolia.
Trace / Holanda
The White Ladies
Liderado brilhantemente pelo perfeccionismo do tecladista Rick van Der Linden em uma reformulada etapa do grupo, "The White Ladies" se desenrola como um imenso e complexo álbum conceitual em dezenove pequenas e imaculadas passagens, baseadas no místico folclore medieval holandês das "Damas Brancas". Fugindo propositalmente da pomposidade agressiva, o seu criador mirou em nuances sonoras lentas e numa refinada mistura de Rock clássico temperado pelo Jazz gracioso.
Buscando traduzir o romantismo e o bucolismo poético literário em delicadas emoções sonoras, a belíssima obra substituiu frenéticos arroubos de teclados por dedilhados meticulosos, dando extremo brilho aos charmosos e atmosféricos compassos executados no elegante clavinete e pelo envolvente uso orgânico dos saxofones. É, sem dúvidas, uma experiência narrativa imersiva, ricamente disciplinada e inesquecivelmente maravilhosa.
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