A banda inglesa FAMILY foi uma das formações mais criativas e singulares do cenário Rock entre o fim dos anos 60 e meados dos anos 70, conhecida por sua fusão complexa de estilos e performances ao vivo intensas. A FAMILY foi formada no final de 1966 em Leicester, a partir dos membros remanescentes de uma banda anterior chamada THE FARINAS, que chegou a mudar brevemente o nome para THE ROARING SIXTIES antes de se estabelecer como FAMILY. A sugestão do nome veio do produtor americano Kim Fowley, que notou que o estilo de vestir dos músicos (frequentemente usando ternos de abotoamento duplo) lembrava o visual de mafiosos.
A formação original Incluía John "Charlie" Whitney (guitarra), Roger Chapman (vocal), Ric Grech (baixo/violino), Jim King (saxofone/harmônica) e Harry Ovenall (bateria), este último logo substituído por Rob Townsend.
A importância da FAMILY na história do Rock deve-se à sua natureza experimental e à recusa em se prender a um único gênero. A banda é considerada um pilar tanto do Rock Progressivo quanto do Rock Psicodélico britânico, cujo som incorporava elementos de: Blues e R&B, Jazz-rock e Jazz Fusion, Folk e música acústica e Hard Rock.
Diferente de muitas bandas de Rock da época, a FAMILY utilizava instrumentos menos convencionais como saxofone, harmônica, violino, violoncelo, flauta e vibrafone. Essa versatilidade permitia arranjos complexos que a destacavam na cena underground de Londres, frequentando clubes icônicos como o "The Marquee".
Um dos elementos mais distintivos da banda era o vocal de Roger Chapman, descrito como um "vibrato elétrico" ou comparado a um "bode elétrico" por sua intensidade e textura única. Chapman tornou-se uma figura cultuada, influenciando artistas como Peter Gabriel e sendo admirado por John Lennon.
Discografia
| Music in a Doll's House |
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Considerado o "som do underground encharcado de ácido", o álbum de estréia do FAMILY chegou ao 35º lugar nas paradas do Reino Unido. O álbum - produzido em grande parte por Dave Mason (TRAFFIC) e projetado por Eddie Kramer no Olympic Studios - transborda experimentação: arranjos de cordas e metais (feitos por um jovem Mike Batt, de 18 anos, não creditado) e uso de Mellotron. O vocalista Roger Chapman chegou a ser creditado por tocar saxofone tenor no disco, mas ele admitiu anos depois que era mentira e que mal conseguia tirar algumas notas do instrumento.
Os destaques do álbum são: "Old Songs, New Songs" que conta com uma linha de baixo trovejante de Ric Grech e um solo de sax de Tubby Hayes (não creditado). "See Through Windows" exemplifica as técnicas psicodélicas, enquanto "Mellowing Grey" traz tons Folk e "Never Like This" é a única música gravada pela banda que não foi escrita por seus membros (foi composta por Dave Mason).
| Family Entertainment |
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Apesar de alcançar o 6º lugar no Reino Unido, "Family Entertainment" foi alvo de muita frustração interna. Enquanto a banda estava em turnê, o produtor Glyn Johns e o empresário John Gilbert mixaram o disco sem o consentimento do grupo. O resultado foi um um álbum que a banda odiou por considerar "suave" e "seguro" demais (ou seja, muito comercial), gerando atritos como o de Ric Grech reclamando que os vocais encobriam seu baixo na mixagem final.
Álbum que atenuou a psicodelia em favor de guitarras acústicas e cítara indiana, "Family Entertainment" tem como destaques "The Weaver's Answer" (um lamento emocionante sobre um homem idoso chegando ao fim da vida) que se tornou a marca registrada da banda, e "Second Generation Woman", cantada pelo baixista Ric Grech, faixa traz um arranjo que lembrava "Paperback Writer" dos BEATLES e uma forte influência de Chuck Berry.
| A Song for Me |
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Após demitirem seu empresário, a própria banda assumiu a produção e "A Song For Me" lançado em janeiro de 1970 tornou-se seu maior sucesso comercial (4º lugar no Reino Unido). O álbum marcou uma transição crucial devido às saídas do baixista Ric Grech e do saxofonista Jim King, substituídos por John Weider e pelo multi-instrumentista Poli Palmer, que trouxe flauta e vibrafone para a banda, forçando o grupo a reescrever arranjos que antes eram de saxofone para a flauta, o que deu uma dimensão totalmente nova à sua mistura de Hard Rock e Folk. Os destaques do disco ficam por conta de "Drowned in Wine" (com uma forte batida de Hard Rock sublinhando motivos Folk) e "Some Poor Soul" (um Blues Rock clássico).
| Anyway |
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Segundo lançamento do FAMILY no mesmo ano, "Anyway", lançado em novembro de 1970, chegou ao 7º lugar no Reino Unido, sendo um disco marcante e bastante peculiar em sua concepção: a primeira metade foi gravada ao vivo no Fairfield Halls (Croydon) e a segunda gravada em estúdio. A gravação ao vivo foi feita às pressas em um antigo gravador de 8 canais com microfones colados rapidamente pelo palco, o que conferiu uma sonoridade mais crua. O som mergulhou de vez no território do Hard Rock. Os destaques vão para "Good News-Bad News" - um Hard Rock que lembra o peso do LED ZEPPELIN com longos solos à la THE DOORS, enquanto "Strange Band" não deixa a excentricidade de lado e apresenta um brilhante solo de violino. |
| Fearless |
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O quinto álbum do FAMILY apresenta o novo membro da banda, o baixista John Wetton (que acabava de recusar um convite para se juntar ao KING CRIMSON). "Fearless" foi o primeiro disco da banda a entrar nas paradas dos EUA (177º lugar). As composições continuaram sua evolução estranha e maravilhosa, abarcando desde blues, Rock e Folk até ritmos surpreendentes para a época. Os destaques vão para "Larf and Sing", uma faixa com estilo "Proto-Disco", e "Between Blue and Me".
| Bandstand |
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Em "Bandstand", a dupla de compositores Chapman e Whitney admitiu ter se inclinado o som do FAMILY fortemente para o mainstream, adotando estruturas tradicionais de verso e refrão. Segundo o tecladista Poli Palmer, a banda já se encontrava "criativamente exausta", a ponto de não conseguirem pensar em um nome para o disco (que acabou sendo batizado pelo empresário). Esse foi o último álbum contando com a participação de Palmer.
Os destaques vão para "Burlesque", que se tornou o maior sucesso da banda nessa fase, exibindo forte influência americana, e "Glove", balada romântica frequentemente citada pelos fãs como a melhor música do FAMILY.
| It's Only a Movie |
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Lançado pelo selo próprio da banda (Raft Records), "It's Only a Movie" é o sétimo e último álbum de estúdio do FAMILY. Comercialmente ignorado na época, seu estilo é surpreendentemente "Funky" e animado, combinando Rock Progressivo e Psicodelia com letras irônicas e envolventes. O baterista Rob Townsend declarou que "It's Only a Movie" é o seu álbum favorito do FAMILY, descrevendo-o como um disco mais "atemporal" que o de estreia, gravado de forma fácil, rápida, sem pressões e regado a muita diversão. O álbum traz como destaque, a faixa-título (onde Chapman canta sobre a produção de um filme de faroeste de forma irônica e metacinemática)
O fim
Apesar de ter alcançado grande sucesso no Reino Unido com álbuns como "Music in a Doll's House" (1968) e "Family Entertainment" (1969), a banda nunca conseguiu repetir o mesmo êxito nos Estados Unidos. Uma turnê americana desastrosa em 1969, marcada pela saída repentina de Ric Grech para o supergrupo BLIND FAITH e incidentes de palco envolvendo o promotor Bill Graham, prejudicou permanentemente a reputação do grupo naquele país.
A FAMILY encerrou suas atividades oficialmente em outubro de 1973, após um último concerto em Leicester. Seus membros seguiram para projetos influentes: Roger Chapman e John "Charlie" Whitney formaram o STREETWALKERS. John Wetton (que passou pela banda entre 1971-72) aceitou um novo convite para integrar o KING CRIMSON. Ric Grech tocou com o TRAFFIC após o fim do BLIND FAITH.








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