O ano de 1976 é frequentemente descrito como o "início do fim" da era de ouro do Rock Progressivo, mas a realidade por trás dessa afirmação é muito mais fascinante e complexa. Na verdade, este foi um ano de profunda transição e de imensos contrastes para o gênero.
Por um lado, o clima cultural estava mudando rapidamente. O Rock Progressivo passou a ser o inimigo número um da imprensa musical da época e começou a sofrer com o surgimento do movimento Punk. Para os críticos, o estilo havia se tornado "pomposo", "autoindulgente" e distante da realidade das ruas.No entanto, comercialmente falando, o Rock Progressivo nunca havia sido tão gigantesco e lucrativo. O ano foi marcado por produções faraônicas, com turnês que arrastavam toneladas de equipamentos, palcos móveis e lasers para lotar arenas. Enquanto alguns dos grandes "medalhões" do estilo enfrentavam crises criativas ou começavam a adaptar seu som para faixas mais curtas e acessíveis às rádios — como o sucesso estrondoso do Genesis com "A Trick of the Tail" (sobrevivendo à saída de Peter Gabriel) e o estouro do Kansas nas FMs americanas com "Leftoverture" —, outras bandas remavam contra a maré. O Rush, por exemplo, ignorou a pressão da gravadora por músicas curtas e entregou o épico "2112", com uma suíte de 20 minutos que acabou salvando a banda financeiramente.
Em resumo: o Rock Progressivo em 1976 não estava morrendo, estava se transformando, e a grande prova disso foram as centenas de lançamentos do gênero pela Europa, Ásia e Américas, verdadeiras pérolas obrigatórias para qualquer colecionador.
| Banco del Mutuo Soccorso |
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Itália
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Contando com a participação especial do "menestrel" Angelo Branduardi no violino, este é um álbum conceitual maduro e menos agressivo que trabalhos anteriores do Banco del Mutuo Soccorso. Apesar da capa ser inspirada na famosa pintura "A Última Ceia" de Leonardo Da Vinci, a temática não é religiosa, mas sim focada em um jantar entre amigos que serve como ponto de partida para uma profunda jornada de descoberta espiritual onde o protagonista deixa cair sua máscara humana. Com letras introspectivas interpretadas pelo inconfundível Francesco Di Giacomo e os arranjos ricos de teclados e sintetizadores dos irmãos Nocenzi, a obra passeia de forma teatral por fortes tensões dramáticas, momentos oníricos e melodias etéreas e relaxadas, trazendo ainda críticas ácidas a charlatães e às falsidades das aparências humanas.
| Celeste |
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Itália
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Também conhecido como "Principe di un Giorno", o primeiro álbum homônimo da banda liderada por Ciro Perrino, é indiscutivelmente a obra mais melódica, delicada e peculiar de toda a cena italiana daquela década. Abandonando as estruturas usuais e o puro virtuosismo técnico do gênero, o CELESTE criou uma sonoridade suave, fortemente inspirada em contos de fadas, com influências da Música Clássica, do Jazz e do antigo King Crimson. O som é ricamente orquestrado com coros celestiais, violões oníricos, vastas ondas de Mellotron, espineta, sintetizadores ARP e dupla de flautas, inovando drasticamente no uso do contrabaixo, que perde sua função rítmica engessada para ser tocado de forma livre, como um violoncelo.
| Corte dei Miracoli |
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Itália
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Trazendo vocais juvenis que lembram muito a estética do Banco del Mutuo Soccorso, o Corte dei Miracoli entrega aqui uma obra extremamente sinfônica com sutis pitadas de Jazz-Rock, focada pesadamente no som dos teclados de Alessio Feltri e Riccardo Zegna. O álbum é uma autêntica enciclopédia de arranjos riquíssimos e gloriosos, banhado por pianos acústicos brilhantes, passagens fluidas de órgão Hammond e sintetizadores analógicos borbulhantes. Trazendo composições impecáveis que variam da abertura avassaladora "E Verrà L'Uomo" à grandiosa suíte final de quase 14 minutos "I Due Amanti", o disco exibe grande virtuosismo melódico e bateria espetacular de Flavio Scogna, sendo perfeitamente indicado para fãs do ELP e Le Orme.
| Eela Craig |
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Áustria
One Niter
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| Latte e Miele |
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Itália
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Lançado pelo selo Magma logo após uma grande reestruturação que manteve do grupo original apenas o baterista Alfio Vitanza, "Aquile e Scoiattoli resgata de forma magnífica a forte influência da Música Clássica mesclada ao Folk acústico e à alma autêntica do Prog italiano. O lado inicial do vinil é dinâmico e surpreendente, destacando-se a cativante "Vacche Sacre", o monumental e hipnótico solo de guitarra na faixa "Menestrello" e uma ousada adaptação em molde Rock para a "Opera 21" de Beethoven. Não obstante o grande lado A, sua verdadeira obra-prima descansa no lado B original: a instrumental "Pavana", com impressionantes 23 minutos e colaboração especial de sopros convidados, construindo um Rock Progressivo atmosférico e de altíssima classe, enriquecido por melodias deslumbrantes que jamais permitem ao ouvinte perder o interesse.
Disco estupendo que catapultou definitivamente o Pulsar para o topo do Olimpo progressivo francês, "The Strands of the Future" é um clássico majestoso de "Prog Sinfônico Espacial" pincelado por um clima onírico e prazerosamente sombrio. A banda evita acrobacias de virtuosismo e foca-se totalmente no extremo bom gosto das composições, ostentando um fenomenal e ininterrupto domínio dos sintetizadores Mellotron e ARP Solina para preencher os canais com corais profundos, emulando arranjos de violinos e cellos. Flertando com momentos líricos na linhas das baladas do Pink Floyd ("Windows") e passagens vocais de dramaticidade angustiante à la Van der Graaf Generator, o clímax inevitável do disco é a sua faixa-título, um envolvente épico de mais de 22 minutos que hipnotiza com baterias climáticas, narrativas sussurradas em francês e viagens cósmicas transcendentais.
| Ramses |
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Alemanha
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Oriundo da fervilhante cidade de Hannover, o Ramses cravou na história este seu disco de estreia, gravado no mítico estúdio de Conny Plank e frequentemente aclamado por críticos como um dos maiores álbuns do Rock Progressivo alemão da segunda metade da década de 70. Exalando um "Heavy Prog Sinfônico" recheado de letras em inglês super fluidas, a banda equilibra perfeitamente as pesadas raízes rítmicas do Hard Rock com grandiosos e luxuosos arranjos celestiais nos moldes do Novalis e do Grobschnitt. A obra se converte num formidável festival de teclados vintage (órgão Hammond, sintetizadores agressivos, Mellotron e Solina String Ensemble), que interagem vertiginosamente com guitarras elétricas bastante melódicas, ofertando desde batalhas instrumentais velozes na faixa-título até a comovente mensagem de denúncia antiguerra apresentada no épico compacto "War".
| Saecula Saeculorum |
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Brasil
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Tratando-se verdadeiramente de uma relíquia imensurável — carinhosamente descrita no próprio encarte como "ouro debaixo da terra por 20 anos" —, esta incrível formação de Minas Gerais foi liderada pelos teclados de Giacomo Lombardi e pelo espetacular e virtuoso violino de Marcus Viana (posterior líder do Sagrado Coração da Terra). O conjunto concebeu um Progressivo Sinfônico de imensa maturidade e enorme personalidade, mergulhando nas clássicas composições do maestro Handel enquanto esbanjava admirável inspiração na trindade Yes, Area e PFM. Inserindo belas e poéticas letras em português adornadas pela voz límpida e repousante de Viana, o álbum vai desde ousadas aberturas "Jazzy", altamente inspiradas pela Mahavishnu Orchestra, até passagens de renascimento orquestral, consolidando um disco extremamente consistente, apesar das antigas restrições técnicas da captação sonora.
| SBB |
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Polônia
Pamięć
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Conduzido pelo talento inegável de uma trinca de verdadeiros arquitetos musicais poloneses, "Pamięć" é o ponto altíssimo do SBB na formidável fusão de Jazz espacial, Rock Sinfônico e muita texturização eletrônica. Guiados sobretudo pelas linhas de baixo, teclado e os vocais dramáticos, por vezes assustadores ou lúgubres de Józef Skrzek em sua língua materna, a banda eleva a complexidade emocional de sua música a patamares cósmicos e avassaladores. Desdobrando-se por apenas três colossais, imprevisíveis e belíssimas composições (entre elas o monstruoso épico de quase 20 minutos "Pamięć W Kamień Wrasta"), a viagem exibe uma química onde os teclados e os intensos estouros cinéticos da bateria de Jerzy Piotrowski repartem harmonicamente as honras com as passagens calmas, oferecendo um prato absolutamente cheio aos colecionadores da rica era dos sintetizadores analógicos puros.
| Schicke-Führs-Fröhling |
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Alemanha
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Incrível disco de estreia deste brilhante trio instrumental formado na Alemanha, *Symphonic Pictures* ergueu um autêntico marco inquestionável na década por sua fantástica habilidade de combinar as nuances obscuras da música eletrônica de vanguarda, o Fusion e o Space Rock com o clássico Progressivo Sinfônico, mantendo um perfeito e imaculado equilíbrio entre o sombrio e o cintilante. Abrindo mão totalmente de canais vocais, a obra entrega uma catártica jornada em que a bateria complexa de Eduard Schicke pulsa em sinergia máxima às maravilhosas invasões espaciais de guitarras e volumosos teclados. O clímax desse projeto pode ser vivenciado na engenhosa montagem instrumental da espetacular faixa-título de 16 minutos (cuja essência influenciaria diretamente o cultuado grupo sueco Änglagård anos depois), e também em momentos majestosos de Mellotron puríssimo dispostos na intensa e mágica abertura "Tao".











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